Sábado, Novembro 21, 2009

Tudo se inicia no útero, tudo termina no cu. Nasce a criança, começa o cadáver. No intervalo entre ambos: lixeiras e metafísica. Cada cristão devora com gosto seu deus. Que deus? São muitos, assim como são tantos e distintos estômagos. Baratas só copulam no crepúsculo. Atores são perversos acessos ao pânico. Padres não gostam da tentação do banho diário, mas assassinos seriais mantêm uma higiene exemplar. Quem você convidaria para jantar em sua casa?

Genocidas são comediantes afeitos à matemática.

Sexta-feira, Novembro 20, 2009

IMAGINAR É VER (ELIPHAS LEVI)


Quinta-feira, Novembro 19, 2009

Na escuridão, a luz é estranhamente perfeita, como cartas que nunca se cruzaram. A nudez do crânio oval que guarda o cérebro do afogado. Diz-se que preciso tomar os remédios, mas com eles não escrevo. Só fico interessante lúcido e alucinado. Quero levar tâmaras para Cleópatra, pois a fome é a linguagem universal. Sou o pássaro morto que ainda voa. Até quando? Não escrevo mais para ninguém, sequer para mim mesmo. Escrevo para que a vontade de morrer atravesse mais um dia. Mais um dia. Mais um dia. Só me vestirei de mulher novamente se eu puder menstruar. Quero novamente o carnaval dos pesadelos suspensos.
As carícias da urologia. Buracos de borracha, aberta cavidade vazia da máscara. Mulheres são máquinas de metal que umedecem. O amor, o móvel do contágio das verrugas.

Quarta-feira, Novembro 18, 2009

Por dentro, meu riso é oco como a angústia, pois cada qual carrega o peso dos próprios nervos. A noite semeada de agulhas escapa da fenda negra da sombra. Borboletas sonolentas nadam no seconal, a beleza dissolvida em seu sal de sódio, letargia da voz do ventríloquo que fala em nós seu roteiro em branco. Freqüência fantasma contaminada de pálido. A morte, encurralada pela nudez, decide pelo vestido de crisântemos.
Pesada tapeçaria da tristeza. Serpente sem garganta da noite. Velocíssimo tórax aberto, caixa de vidro que guarda a víscera.
A sangria dos pássaros em pleno vôo tinge o céu de vermelho que se diz do sol no ocaso menstrual.

Amor colorido do gerente subalterno do bordel das banguelas.

Terça-feira, Novembro 17, 2009

Corpo do amor, corpo da morte.

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

Van Gogh extirpou sua orelha porque não precisava de óculos. A loucura é essa lucidez que se livra do desnecessário. A estrela oblíqua sempre ameaçou cair sobre os mortos. À noite, Van Gogh pintava seus quadros com seu chapéu de aba gasta e tricotada, a qual trazia doze velas acesas em equilíbrio. Seus olhos lacrimejavam tintura de ópio. Diante deles: tudo iluminado.
A psicologia estuda a nudez dos bonecos de vidro. Diante do psiquiatra, sou o corpo sem órgãos, sem alma, mas com o cérebro tarado a taramelar:

“Como foi sua infância”?
“O eterno Natal da castração”.
“Porque o objeto da lei é o mesmo do desejo”.

Domingo, Novembro 15, 2009

A infância é um cadáver que arrastamos pelo resto da vida. Quanto mais apodrece, mais nossa vida se assemelha à cartografia de sua morte.

Feliz Cristo, que saltou do nascimento para seus trinta e três anos de idade. Gostaria de ter biógrafos tão mal informados quanto ele.

Desconheceremos para sempre aquela tarde entre Cristo e as cabras...

Que surjam os evangelhos apócrifos sobre a puberdade do deus homem. Relembrar a infância é foder o corpo macio da perversão.

Estou condenado a passar novamente por tudo isso. Meu novo corpo não poderá jamais esquecer. Cada nascimento que tive me individualizou frente à ruína anunciada.

É preciso suportar a felicidade fatal de existir separado para sempre. O homem é esse animal delicado que desistiu da exaustão.

Viver por desespero; trabalhar por desespero; trepar por tédio; morrer em vida; dissolver-se em nada; corrigir as leis da compreensão – o niilista ativo sonhado por Nietzsche é incapaz de existir, a única solidão digna de ser fruída é a do crime. O próprio Nietzsche só queria casar e ser feliz. Ele me enganou, todos me enganaram.

Quando morrer, morrerei logrado, como Rimbaud, que é Artaud, que é Cristo, que sou eu.

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A Lontra Hiperbórea
O que fere minha modéstia é o fato de que sou todos os nomes da História.
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