A infância é um cadáver que arrastamos pelo resto da vida. Quanto mais apodrece, mais nossa vida se assemelha à cartografia de sua morte.
Feliz Cristo, que saltou do nascimento para seus trinta e três anos de idade. Gostaria de ter biógrafos tão mal informados quanto ele.
Desconheceremos para sempre aquela tarde entre Cristo e as cabras...
Que surjam os evangelhos apócrifos sobre a puberdade do deus homem. Relembrar a infância é foder o corpo macio da perversão.
Estou condenado a passar novamente por tudo isso. Meu novo corpo não poderá jamais esquecer. Cada nascimento que tive me individualizou frente à ruína anunciada.
É preciso suportar a felicidade fatal de existir separado para sempre. O homem é esse animal delicado que desistiu da exaustão.
Viver por desespero; trabalhar por desespero; trepar por tédio; morrer em vida; dissolver-se em nada; corrigir as leis da compreensão – o niilista ativo sonhado por Nietzsche é incapaz de existir, a única solidão digna de ser fruída é a do crime. O próprio Nietzsche só queria casar e ser feliz. Ele me enganou, todos me enganaram.
Quando morrer, morrerei logrado, como Rimbaud, que é Artaud, que é Cristo, que sou eu.